Talvez o mês fosse Novembro ou Dezembro. O ano com toda certeza foi 2009.

O plano estava muito claro, terminar de gravar um álbum. Levantar um dinheiro e em Março, no máximo Abril, pedir as contas.

A promessa de uma turnê nacional, em parceria com uma produtora forte no cenário independente nos encantou e ficamos encantados com essa possibilidade.

“Já pensou? Conhecer vários estados brasileiros, com a nossa música e ainda ganhar dinheiro com isso?”

“Hoje meu salário é X. Analisando a quantidade de shows, subtraindo as despesas de viagem, alimentação e manutenção dos instrumentos. Dá mais que o dobro”.

“Cara, vamos levar nossa música e nosso sentimento em todos os estados do país”

Essas foram algumas das frases ditas por mim e os meus amigos de banda.

Naquele mesmo 2009, eu estava escalado para trabalhar no Natal. Entrava às seis da manhã. Então trabalhei dia 24/12 e 25/12. Nesses dois dias eu saí de casa para trabalhar por volta de 04:40 da manhã. Na rua várias pessoas entre embriaguês e pura felicidade, me desejavam um feliz Natal.

Mesmo com a decisão de sair do emprego já definida, sempre considerei essencial o compromisso com o trabalho. Além de profissionalismo e respeito com meus colegas, era uma questão de caráter. E disso não abro mão. Aprendi em casa com os velhos e tenho que honrar sempre.

Passaram os meses de Janeiro, Fevereiro e Março. Apenas uma ausência nesse tempo todo, um domingo, e por incrível que pareça, o último antes de me despedir da empresa, passei a manhã toda em um posto de saúde, uma virose havia me derrubado.

Parece mentira, mas foi no dia 01/04 que pedi as contas, com o objetivo de realizar um sonho, compartilhado em 4.

A mulher, que anos depois viria a se tornar minha chefe, me deu todo o apoio naquele dia de despedida.

Dia 17/04/2010, em reunião com a produtora, conduzida por um casal, fomos comunicados que eles estavam se desfazendo a sociedade, assim com o relacionamento deles.

Era uma pizzaria na rua Teodoro Sampaio, em São Paulo. Não lembro o nome, mas se você estiver nessa rua, de um lado está uma padaria e do outro a pizzaria, bem de esquina. O refrigerante estava mais amargo do que um copo de café e talvez tenha sido a pior pizza que comi na vida. O pior dia, com possivelmente, sim.

Cara, em menos de um mês, eu estava sem trabalho, e de repente, todo aquele planejamento dos últimos meses, os sonhos, os desejos, tudo. Os quatro ou cinco shows por semana…não existiam mais. Pareceu um cruzado de direita que deixou nós quatro tontos, quase indo de encontro à Lona.

Olhamos um para o outro, sem saber exatamente o que dizer. O silêncio foi o grande destaque naquele dia.

Pagamos a conta, trocamos algumas palavras e decidimos ali que iríamos tentar. Com nossa força e nossa insistência, para ver o que conseguiríamos. Acreditávamos um no outro e no que fazíamos.

Nos 12 meses seguintes, nosso álbum foi lançado, uns amigos compraram nossa ideia e fizeram a arte do álbum e gravaram o clipe em troca de comemorar conosco aquele feito, com algumas cervejas, conseguimos um patrocínio de amplificadores, tínhamos uma produtora, nossa música tocou em uma rádio FM, com incrível detalhe, sem termos gasto um centavo sequer.

Nosso CD chegou a outros estados. Subimos no palco em uma casa em SP, que era nosso sonho e em uma terça-feira, lotamos com 300 pessoas. Tocamos na Virada Cultural de SP e outros festivais. Viajamos para outros estados para tocar. Tivemos uma página inteira em Jornal impresso, entrevistas para blogs, sites, teve até marca grande de óculos e canais do Youtube. Até no Ronnie Von a banda esteve, quando esse que escreve, já não fazia mais parte do grupo. Mas o fato me deixou extremamente orgulhoso.

Teve lugar que fomos a atração aguardada da noite. Fizemos amigos naquele tempo, que até hoje são nossos amigos. Viramos tatuagem em um fã, que se tornou um dos melhores amigos. Nossos sentimentos na música, se tornaram sentimentos de outras pessoas. A gente teve que bater de bar em bar, ligar, mandar e-mail, tomamos canseira e enrolação. Mas quantos testes e provações que passamos durante aquele período.

– Vocês provavelmente tem alguma música, que tem um baita sentido em sua vida, certo? Eu mesmo tenho as minhas “fugas musicais”.Agora pensa comigo, uma música que eu ajudei a construir, seja no arranjo ou na melodia, seja na letra dela. E agora ela é parte da vida de alguém. É muito louco isso!

Não ficamos ricos, não fizemos turnê fora do país, não fomos presos por arrumar briga em algum bar e ainda fiquei alguns anos sem encostar em uma guitarra ou violão.

Mas essa imagem acima, diz muito, não diz? Ignorem a letra torta na tatuagem, o Zeka reproduziu de um setlist que eu escrevi (um dos poucos que eu escrevi).

Percebe, que mesmo com a coisa não saindo da forma como a gente quis, mesmo assim foi foda pra caramba?

Perdão pelo palavrão, mas a sinceridade em cada uma das palavras aí é verdadeira e decidi não vedar essa palavra.

Diante do fracasso, normalmente são apresentadas duas opções: lamentar ou valorizar o aprendizado.

Eu escolhi valorizar tudo que aprendi e vivi. Recorro ao nosso Drummond: “A dor é inevitável. O sofrimento é opcional” ou então ao trecho “levanta, sacode a poeira. Dá a volta por cima”, eternalizada na voz da Beth Carvalho. É isso, simples assim!

Eu queria ter mais imagens para publicar, mas tenho apenas as palavras. Você aceita? Espero que sim. Boa semana!

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