Era domingo, eu estava com um sono além do normal, pós uma noite mal dormida.

Apesar de já estarmos em plena Primavera, que anos anteriores nos proporcionou dias extremamente ensolarados, desta vez, o sol pouco se apresentou. Ele estava tímido, apareceu, deu um alô e logo se foi. Não era calor, também não era frio.

Como costumamos dizer na região em que moro, “o clima estava gostoso”.

E aqui, me sinto na necessidade de tecer um comentário: é engraçado, que através do clima, definimos o que é gostoso para uns e desgostoso para outros, como se fosse uma regra bruta, imutável.

Como tradição, em quase todos os domingos, logo cedo costumo ir à feira. Poderia dizer que é um ritual dominical, pois é uma rotina que percorre um script quase que pré-definido.

Eu já sei exatamente o local que estaciono o carro, o garoto que irá pedir um trocado para olhar o meu carro, e que de fato, não olhará nada, já sei qual será a abordagem que os feirantes utilizarão, me arrisco em afirmar que sei o tempo exato em que fico perambulando aqueles metros, com vozes em alto volume, na tentativa de atrair novos consumidores.

Primeiro os vegetais, em seguida as frutas, por fim um pastel de carne para o meu velho, enquanto a mim, um de pizza. Minha mãe não costuma comer pastéis.

Prove esse abacaxi, hoje ele está delicioso.

Me indaga o primeiro feirante, enquanto atravesso aquele corredor intimista, que de maneira estratégica, mesmo que rivais, os vendedores costumam encurtar o espaço do trajeto dos consumidores, tornando quase que inevitável a quem caminha pela feira, tenha que passar por todas as barracas.

Uma vez perguntei ao “Edinho” sobre essas barracas mais próximas e ele confirmou que era uma estratégia mesmo, de todos os feirantes deixarem as barracas mais próximas umas das outras, diminuindo o raio da passagem das pessoas, estratégia brilhante essa.

Costumo dizer que ele é o feirante que me fidelizou, tanto por bons produtos quanto muita sinceridade.

Hoje não leve essa melancia, pois ela não está boa

Uma vez ele já me dissera.

Já em uma outra, quando o funcionário foi me oferecer um produto que estava com preço vantajoso, ele interviu “essas frutas não são para oferecer a eles”, deixando para nossa conclusão que eram produtos com qualidade aquém da qual estamos habituados.

Há pelo menos um ano e meio, que sempre compramos no mesmo lugar, afinal se tratam de produtos perecíveis e toda confiança é necessária.

Normalmente costumo seguir esse meu script, sem novidades, como se estivesse no piloto automático, vez ou outra, existe uma variação ao que consumo. Mas no macro, sigo uma rotina.

Já no final do meu ritual, parei para comprar bananas, que é uma das frutas mais consumidas em casa.

Dois feirantes nos deram bom dia e iniciaram uma argumentação sobre o que era mais valioso: um bom dia ou uma nota de 100 reais.

Cada qual defendia a sua resposta com argumentos que não poderiam ser refutados. Eles foram bastantes racionais em suas lógicas.

Lhes darei os nomes de Pedro e João, fictícios.

João falou: “Eu considero importante o bom dia. Mas como 100 reais eu estaria mais feliz. ”

Enquanto Pedro o retrucara: “100 reais você ganha trabalhando. O bom dia às vezes terá de conquistar. ”

Eu optei por resumir a discussão, pois teve duração de pelo menos 3 minutos, com eles defendendo seus pontos de vista distintos.

Ela durou até o ponto em que minha mãe, brilhantemente, fez um comentário engraçado que distraiu os dois do tema principal da discussão, para enfim cobrar pelas nossas aquisições.

Foi um diálogo interessante e pensei sobre, brevemente, tanto no domingo, quanto no dia seguinte, quando retornou à tona.

Dois foram os pontos de destaque nesse diálogo, o primeiro, em relação a pessoas que convivem juntas diariamente, se relacionam bem, porém com visões completamente distintas.

E o outro, quanto a necessidade de argumentação para provar sobre quem estava certo e errado.

As pessoas podem e provavelmente terão visões distintas para um mesmo ponto.

Para mim, que escreve esse texto, o “bom dia” faz muito mais sentido e é o mais importante.

Eu acredito que um sorriso ou qualquer interação, até mesmo com um desconhecido, possa ser extremamente valioso e modificar o dia do outro.

Mas e se a pessoa está em uma situação ruim, à qual o montante em dinheiro faça uma diferença considerável?

Não é errado valorizar mais a quantia em dinheiro ao invés do gesto. Não estou na pele dele, tampouco vivenciando ou sentindo a vida dele.

Dessa vez foram 100 reais versus um bom dia. Mas já parou para pensar que isso pode se estender para outros temas?

Essa foi a lição desse domingo.

E para você,​ o que é mais importante: 100 reais ou um bom dia?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s